call us (+351) 961 713 832 | Write us
  • If you be so Kind
FacebookLinkedIn
Estátua de Dom Afonso III em Faro

Estátua de Dom Afonso III em Faro

A conquista de Faro aos Mouros, por D. Afonso III, em 23 de Fevereiro de 1249 terminouuma importante fase na história da cidade e do Algarve. No entanto, a influência árabe continuou a sentir-se até aos nossos dias na cultura algarvia. Uma das expressões dessa presença são as chamadas lendas das mouras encantadas, transmitidas de pais para filhos durante séculos.

Uma destas lendas das mouras encantadas está intimamente associada ao Arco do Repouso, entrada medieval fortificada pelos árabes no séc. XI com duas torres albarrãs que visavam melhor defender Faro de possíveis ataques cristãos e de reinos muçulmanos rivais.

[…] Reza a lenda que:

Parte das forças que atacaram o castelo de Faro fora colocada no largo actualmente chamado de São Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso oficial, robusto e formoso rapaz, solteiro. Este oficial pôde ver em certa ocasião a formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado. A presença agradável e o aspecto belicoso do nosso oficial não passaram despercebidos à moura, e esta, em breve tempo, estava em relações amorosas com o valente oficial, por intermédio de um seu escravo, também mouro, e que conhecia perfeitamente as línguas portuguesa e sarracena.
Em certo dia conseguiu o oficial que a sua namorada o recebesse em
curto rendez-vous dentro do castelo, combinando-se que o mouro intermediário lhe abrisse, alta noite, a porta, hoje da Senhora do Repouso. Antes da noite dirigiu-se o oficial a algum dos seus camaradas e disse-lhes:

— Espero entrar esta noite dentro do castelo pela porta do nascente. Se não voltar, depois de pequena demora, é porque caí num laço bem urdido; e então peço-lhes que se o castelo for tomado e lhes venha às mãos a filha do governador a poupem e a não maltratem. Certamente ela não contribuiria para tal traição.

Prometeram-lhes os camaradas cumprir as suas ordens, depois que reconheceram a impossibilidade de o demover da sua empresa.

À hora marcada entrou o oficial no castelo e aí em doce colóquio se entreteve com a dama dos seus encantos. À hora de sair, acompanhou ela o seu querido namorado até à porta do castelo, levando consigo um irmão, criança de oito anos.
Quando se aproximaram da porta, disse-lhes o escravo, que da parte de fora estava muita gente, pois que mais de uma vez lhes chegavam aos ouvidos vozes abafadas. A gentil moura estremeceu.

— Não tenhas medo: respondo pelos que estão de fora, disse, o oficial à moura, dando-lhe o beijo da despedida.

Neste momento o criado destrancou a porta, fazendo pequeno ruído. Então foi a porta impelida de fora para dentro com muita força e um grupo de soldados cristãos, numa vozearia de estontear começou a gritar pelo seu oficial. A este impulso gigantesco, o oficial recuou um passo e susteve nos braços a sua gentil moura, colocando-a sobre os ombros e dizendo em voz alta:

— Para trás, para trás: estou aqui.

Um dos túneis que a tradição popular dizem terem sido esconderijos dos mouros"

Um dos túneis que a tradição popular dizem terem sido esconderijos dos mouros”

Já a este tempo soava por todo o castelo a voz de alarme. Armados até aos dentes afluíram os defensores à porta do nascente. O oficial, segurando nos braços a moura gentil, viu-se em iminente perigo. Avançou para fora com a moura e, quase ao transpor a porta, hoje conhecida pela Senhora do Repouso, notou que tinha nos braços não uma formosa jovem, mas apenas uns farrapos, que se desfaziam à mais pequena e leve aragem. Olhou para o lado pela criancinha e não a viu. Então teve a profunda e tristíssima compreensão da sua desgraça. Caiu no chão sem sentidos.

Passadas horas tornou a si o oficial e viu-se deitado na sua cama sob a barraca de campanha. Tinha a seu lado um camarada, de quem era amigo íntimo.

— Quem me trouxe para este lugar? perguntou.

— Não fales porque te faz mal. O físico proibiu que falasses.

— Eu estou bom, disse o oficial erguendo-se de um salto. Quem me conduziu para aqui?

— Eu e os nossos camaradas. Estavas caído entre a porta do castelo.
— E a filha do governador?

O amigo nada lhe soube dizer da filha do governador. Contou-lhe que, tendo esperado com alguns camaradas a sua saída do castelo, tinham resolvido entrar à força, supondo que o teriam morto, e que o governador ousado acudira com as suas numerosas forças e rechaçaram a pequena força portuguesa. Nesse momento acudiram as forças do Mestre e de D. João de Aboim e os mouros tinham sido forçados a entregar o castelo, mediante uma avença com o Rei D. Afonso.

Arco da Senhora do Repouso

Arco da Senhora do Repouso

O oficial saiu da barraca e pediu ao amigo que o deixasse. Dirigiu-se à porta do castelo. Ao entrar pelo Arco da Senhora do Repouso viu ao lado esquerdo a cabeça de uma criança que se assomava por um buraco.

— O que fazes aí, menino? perguntou o oficial, conhecendo o irmão da sua namorada.

— Estamos aqui encantados eu e a minha irmã.

— Quem vos encantou?

— O nosso pai soube por uma espia que levavas nos braços a minha irmã acompanhada por mim e, invocando Allah, encantou-nos aqui no momento em que transpunhas a porta. Por atraiçoarmos a santa causa do nosso Allah aqui ficaremos encantados e minha irmã, pela sua traição de filha, condenada a vaguear pelas muralhas da cidade…

— Por muito tempo?

— Enquanto o mundo for mundo e até ao dia em que um jovem cavaleiro a desencante com as palavras magicas…

O oficial, um valente, não pôde suster as lágrimas. Quis ainda perguntar à criança mais pela irmã mas a criança desaparecera.
Nunca mais ninguém viu o oficial rir. Terminado o cerco, pediu licença ao Rei e recolheu-se a um convento, onde professou adoptando outro nome.

A Moura ainda hoje ronda as Muralhas de Faro. Mas é preciso saber as mágicas palavras que a libertem de tão maldito encantamento. Só que nenhum jovem cavaleiro ainda até hoje descobriu essas palavras para desencantá-la.