call us (+351) 961 713 832 | Write us
  • If you be so Kind
FacebookLinkedIn
Foto-1

Cadeia da Relação do Porto\Centro Português de Fotografia

 

Camilo Castelo Branco foi, junto com Almeida Garret, o escritor mais relevante do Romantismo Português.

Nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825 era filho não legítimo de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835), de fidalga ascendência, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (1799-1827). Seu pai, envolvido em várias fraudes, por viver em escandaloso concubinato e pelas humildes origens de sua “mulher”, filha de pobres pescadores, perfilharia os seus filhos somente em 1829.

Mas a adversidade que percorreria toda a vida de Camilo apenas estava no início, pois perderia a sua mãe a 6 de Fevereiro de 1827 e o seu pai a 22 de Dezembro de 1835, vítima de cólera ou loucura.

Voltando às origens paternas, mudar-se-ia para Trás-os-Montes, ficando a viver com parentes no concelho de Vila Real. Estes anos de juventude, neste remoto e rural canto de Portugal, marcariam profundamente a sua personalidade e escrita, tendo o Padre António de Azevedo, seu principal mentor, dado as primeiras luzes em Teologia, Literatura Portuguesa, Latim e Francês. Com apenas 16 anos casaria, em 18 de Agosto de 1841, com Joaquina Pereira de França, ficando ambos a viver no concelho de Ribeira de Pena e teriam uma filha a 25 de Agosto de 1843. Mas a sua efervescente paixão rapidamente terminaria, pois em Outubro do mesmo ano muda-se para o Porto, para se matricular na Escola Médica, abandonando para todo o sempre a sua primeira mulher e filha.

Foto-4

Interior da Cadeia da Relação

Mais virado para a boémia vadia e livre do que o estudo rigoroso, após uma fugaz passagem por Coimbra, abandonaria os estudos em 1845.

Voltando a Vila Real, apaixonar-se-ia pela sua prima Patrícia Emília, fugindo com esta após serem acusados de roubo pelo pai desta e amante da tia-“madrasta” de Camilo e acabariam detidos na Cadeia da Relação do Porto, entre 12 e 23 de Outubro de 1846. Esta não seria a última vez que Camilo teria problemas com a Lei e seria preso nesta cadeia por problemas de saias, nem a mais famosa.

Boémio inveterado, pelos seus braços e lábios várias mulheres passariam. Não interessava se fossem solteiras, casadas ou mesmo religiosas, da sociedade ou do povo, cultas ou incultas. Com todas teve intensas relações e amor, desde o mero platónico ou epistolar, passando pelo maternal, até ao intenso consumar do amor carnal. A morte de sua mãe e os seus parentes paternais, mulherengos incorrigíveis, talvez expliquem estas arrebatadoras e inebriantes mas efémeras paixões.

Com o avançar da idade estabelecer-se-ia na vida, colaborando em várias publicações como jornalista e escritor, escrevendo o seu primeiro romance em 1850, conseguindo viver dos seus escritos, embora sempre com aflições financeiras. Mas o seu coração clamava ainda pelo verdadeiro amor, aquele que o acompanharia para o resto da sua vida, recordando-se daquela a que tinha chamado de “a minha mulher fatal”, quando a conheceu em 1848, num baile da Assembleia Portuense,

Foto-2

1ª edição do “Amor de Perdição”

“De branco, caia-te da cintura aos pés uma faixa de seda em ondulações, enastravam-te os cabelos enfeites de fitas escarlates, tão graciosos como simples.”

Mas o seu afecto teria de esperar pois Ana Plácido, a sua mulher fatal de tenros 19 anos, seria “sacrificada a um homem repelente, que só me aspirava aversão” ao casar-se com Manuel Pinheiro Alves, de 43, rico brasileiro de torna-viagens (emigrante no Brasil). Somente em 1858 voltar-se-ia a reencontrar. Com um filho Manuel Plácido, de paternidade duvidosa, Ana Plácido entregar-se-ia de alma e coração a Camilo, correspondendo este com o seu sincero e fiel amor, tornando-se uma escritora com méritos próprios.

Tendo a sua paixão sido alvo de grande escândalo, ambos fugiram, sendo Ana Plácido detida a 6 de Junho de 1860 e Camilo a 1 de Outubro, ambos na Cadeia da Relação do Porto que Camilo bem conhecia da sua estadia em 1846.

Desta sua última estadia nasceriam obras como “A Queda de um Anjo”, “Memórias do Cárcere”, “Amor de Salvação”. Mas a sua obra mais conhecida talvez seja o “Amor de Perdição”, escrito ainda na cadeia e em somente 15 dias. Narrando o trágico romance de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, de famílias inimigas, qual Romeu e Julieta esta obra, esta obra inspirou-se na vida de seu tio Simão Botelho, que daria nome a uma das personagens principais. Mas também reflecte toda a sua vida e de seu pai, pois os três eram mulherengos e todos seriam presos passaram pela Cadeia da Relação. O tio, por homicídio, o pai por deserção e o filho por suspeitas de adultério.

Foto-3

Cemitério da Lapa

Surpreendentemente considerados inocentes em Outubro de 1861, viveriam em mancebia e finalmente casamento, assentando em Ceide, Vila Nova de Famalicão em finais de 1863. Geraram uma prole que os assolariam com problemas de alcoolismo, jogo e loucura, a que se juntaram recorrentes e severos problemas financeiros.

Camilo, que era afectado por problemas de visão desde 1856, derivado da sífilis, após saber que ficaria permanentemente cego, poria termo à sua própria vida a 1 de Junho de 1890 e seria sepultado no Cemitério da Lapa no Porto.